'Esses movimentos deixam de fora nossas necessidades prioritárias', diz Edson Gomes sobre protestos



Edson Gomes anda sumido. Natural de Cachoeira, o regueiro já fez muito sucesso, muitos discos e shows, e hoje vive longe dos holofotes em São Félix, cidade vizinha à sua terra natal. Trilha sonora de muitos protestos e passeatas, algumas das músicas de Edson Gomes podem ter mais de 20 anos, mas não perderam a vitalidade, nem saíram das cabeças das pessoas. Basta iniciar o refrão “esse sistema é um vampiro”, que todos seguem o “ô ô ô ô ô”, mesmo inconscientemente. O cantor, no entanto, abusa da consciência, da espiritualidade e da maneira atenta de observar o mundo para compor. “Há mais de 20 anos que estou nessa luta por direitos, por melhorias, por qualidade de vida. E agora eu vejo a população nesse levante e sinto uma satisfação muito grande em ver que a minha luta não foi e não tem sido em vão”, contou ao fazer referência aos protestos que aconteceram no Brasil durante as últimas semanas. Para ele, no entanto, essas manifestações, ao se pautarem em tantos anseios, deixa de lado o que é prioridade para a sociedade: saúde e educação. “Emergencial é a saúde, que está mesmo no buraco. Mas não podemos construir uma nação produtiva sem educação. Educação para mim é tudo”, sentenciou.  Edson Gomes também não deixou de falar sobre o lado espiritual e a conexão que tem com o transcendental.  “Não tenho mais interrogação nenhuma relativa ao meu lado espiritual porque todas elas já foram respondidas. As informações que existem na Babilônia são falsas, são enganosas. Eu também tinha essas informações, mas eu encontrei o caminho verdadeiro, da liberdade das coisas verdadeiras e hoje todas essas interrogações já foram respondidas”, disse. Com a agenda de shows vazia, o cantor se aventura na gravação de um novo disco, ainda sem previsão de lançamento. É aguardar...


BN - Você é Cachoeirano, nascido no Recôncavo da Bahia. Ainda na década de 80, você foi morar em São Paulo. Resuma um pouco dessa sua trajetória pelo Brasil.
EG -
Eu sou natural de Cachoeira. Em 1975, houve um festival de inverno lá em Cachoeira no qual eu fui premiado. Na década de 80, decidi ir morar em São Paulo, tentar carreira lá, mas não deu certo e voltei. Antes disso, já havia morado no Rio e também não deu certo. Então, resolvi voltar e fazer minha carreira musical aqui na Bahia mesmo. Hoje eu moro em São Félix.

BN - Protesto social e político é a tônica de muitas de suas composições. Inclusive, antes mesmo de encontrar o reggae, você já sabia que queria cantar essas críticas. Como é a sua relação com esses temas hoje, depois de mais de 20 anos de carreira?
EG -
Para minha surpresa, eu vejo que meu tema é atualíssimo. Inclusive, com essas manifestações, com esse levante da população brasileira. Há mais de 20 anos que estou nessa luta por direitos, por melhorias, por qualidade de vida. E agora eu vejo a população nesse levante e sinto uma satisfação muito grande em ver que a minha luta não foi e não tem sido em vão. 

BN - Acha que o sentido que suas músicas ainda alcançam hoje se deve a que motivo?
EG -
O meu olhar é sempre para o cotidiano, para o dia a dia, para o que está acontecendo ali ao nosso redor: a violência, a pobreza, as mazelas, a corrupção...Tudo isso faz parte do cenário nacional, não de agora, mas de sempre. O que acontece hoje é que todos esses problemas cresceram. O Brasil se mostra um país que está caducando, perdendo os valores morais e virando uma bagunça total: a palavra não vale nada, as pessoas só vivem de aparência, aparência esta que nos leva a acreditar naqueles que se dizem “salvadores da pátria”, mas na verdade são novos corruptos que se levantam para corromper e para nos inibir . 

BN - No início da sua carreira você costumava a se apresentar com uma calça e uma camisa camufladas, estilo militar. Porque adotar esse visual na época?
EG -
Aquela era muito mais uma indumentária de força, de resistência, um comportamento diferenciado. A farda representa a força, mas a nossa maneira de mostrar não se resume e não se assemelha à força brutal, opressora, mas sim a força libertadora, da união.
 

 
BN - Além de você, a Família Gomes guarda muitos outros reggaeman: Timtim Gomes e Edy Brown (seus irmãos), Isaque e Jeremias Gomes (seus filhos). Conte-nos um pouco sobre essa "linhagem"...
EG - Na verdade, como eu sou o pioneiro, todos eles vieram na mesma pegada, no mesmo tema. Uns compondo, outros somente cantando. O Edy Brown é o compositor da família. O Isaque compõe, mas o Jeremias não compõe ainda, é só intérprete.

BN - Muitas das suas músicas são relatos de coisas que você viveu. Qual a situação mais marcante que você passou e conseguiu cantar?
EG - Nem tudo que eu componho aconteceu comigo. Meu olhar é um olhar crítico, no qual observo a vida das pessoas, da sociedade. Eu tenho um olhar observador em relação ao que ocorre. Então, eu não estou lembrado de um fato que aconteceu comigo e que eu tenha relatado em música. “Ovelha Negra” eu compus para mim mesmo, ainda na época em que eu vivia na casa de meus pais, por volta dos vinte anos de idade. 

BN - Suas músicas também falam bastante do amor e da plenitude do homem, tanto em seu lado cidadão, quanto espiritual. O reggae abriu portas para você pensar/sentir mais esse lado transcendental?
EG - Ah, com certeza. Principalmente o meu reggae, que é feito em português, então ele tem que ser um reggae com letra bem esclarecida para que ele transmita a importância e o real objetivo da canção reggae, que é provocar o coração daquele que ouve. É um processo lento, porque nós viemos de uma ditadura, na qual pouca importância se dava ao pensamento, à meditação, ou seja, ao desenvolvimento humano. A educação é precária e ninguém está mais preocupado em formar educadores, mas em só formar mão de obra. Hoje ninguém pensa mais, é só nós observarmos o que a juventude tem produzido em relação à música. Isso é resultado da falta de pensadores. Então, a música reggae incute nas pessoas a necessidade de se pensar e buscar perguntas e respostas dentro de si mesmo, viajando pelo lado espiritual, procurando ouvir a palavra do Criador, já que junto com ele podemos encontrar e aprender muitas coisas e responder a todas interrogações que nós temos.

BN - Quais são suas interrogações?
EG - Na verdade, eu não tenho mais interrogação nenhuma relativa ao meu lado espiritual porque todas elas já foram respondidas. As informações que existem na Babilônia são falsas, são enganosas. Eu também tinha essas informações, mas eu encontrei o caminho verdadeiro, da liberdade das coisas verdadeiras e hoje todas essas interrogações já foram respondidas.

BN - Em maio, a Justiça determinou a suspensão dos editais para criadores negros lançados pelo Ministério da Cultura em novembro, mês em que se comemora a consciência negra. Como muitas outras ações afirmativas do governo, o lançamento do edital foi encarado por essa ação que acabou por suspendê-lo como ainda mais segregador. Sendo negro e cantor de reggae, como você encara essa afirmação?
EG - Os magistrados foram formados para executar a lei, mas eles não pensam. Estamos vivendo um caos no que diz respeito a todos os serviços públicos. Uma pessoa exclusivamente formada em uma faculdade não consegue interpretar os anseios de nossa sociedade. Nós não queremos segregação nenhuma, nós queremos é igualdade e oportunidades assim como têm os detentores do sistema e da informação. Os ditos formadores de opinião não admitem que nós, negros, formemos a nossa opinião. Para eles, basta que nós reproduzamos as opiniões deles. 

BN - O Brasil, vive um momento de "despertar" para esses problemas que você já cantava em suas músicas. Como você percebe esse momento no país?
EG -
É o início de uma conscientização que ainda não é plena. Não é plena porque todos esses movimentos deixam de fora todas as nossas necessidades prioritárias. Algumas delas estão em questão, como o passe livre, a legalização e aceitação do casamento gay. Mas essas pautas estão em questão e acaba-se esquecendo um pouco da saúde, um pouco da educação, passando de leve pela segurança, que também é um caos. Tudo isso é um bom levante, mas a partir daí podemos rever as nossas reais prioridades.

BN - Saúde e segurança seriam, para você, nossas reais necessidades hoje?
EG - Emergencial é a saúde, que está mesmo no buraco. Mas não podemos construir uma nação produtiva sem educação. Educação para mim é tudo. No momento, emergencial, a saúde, mas para mim educação é tudo, inclusive um antídoto contra a pobreza.

BN - Hoje, em Salvador, as músicas de protesto têm ressurgido com os meninos da cena hip hop, com o rap. Você está em contato com esse pessoal? Quais os nomes de destaque, na sua opinião?
EG -
No Hip Hop eu não conheço ninguém e no reggae eu não vejo ninguém com essa disposição de levantar uma bandeira, de lutar. Eu vejo uma série de cantores levando a bandeira única da curtição, mas não tem ninguém lutando. 

BN - Além dos shows, quais projetos você tem pensado agora?
EG -
Eu tenho um projeto, que acabei parando devido aos projetos de meus filhos. Para evitar o choque entre irmãos, frutos de casamentos diferentes, então eu tive que interromper minha ideia para cuidar dos projetos deles. Depois, quando já estava na fase de ensaios desse meu trabalho, tive um problema com a banda, o que atrasou um pouco as coisas. Agora eu estou retomando, mas devido ao tempo que já estou trabalhando nisso, eu já estou tendo dificuldades em selecionar o repertório, são muitas músicas já. Os shows eu continuo a fazer normalmente. Houve uma redução, mas isso acontece muito com o meu reggae. Eu nunca estou com uma agenda cheia devido à repressão, à retaliação. Então tenho, realmente, um pouco de dificuldade de estar com a agenda cheia, mas estou sempre atuando.

BN - Quais são os temas dessas suas últimas composições?

EG - A minha bandeira é única, enquanto houver repressão, pobreza, educação precária, o meu tema vai ser sempre esse.

Fonte: Bahia Notícias
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